
Era aquele um dia plenamente normal, daqueles em que você consegue prever até como estará ao dormir, quando Suzumiya Haruhi me pediu um favor. Eu devia ter desconfiado logo. Suzumiya Haruhi nunca pede, ela ordena. Entretanto, dessa vez, ela estava pedindo. Decidi que se ela pedisse “por favor”, eu deveria fugir dali com urgência. Por sorte, minha cadeira era a mais próxima da janela.
- Um favor? O que seria, Haruhi? Você quer dar mais voltas pela cidade para procurar coisas estranhas? Quer fazer um filme? Um site? Uma trilha sonora?
- Não, seu idiota! Eu não pediria algo assim! Como membro da brigada é mais do que sua obrigação realizar todos esses serviços sob as minhas ordens! O que irei lhe pedir é algo pessoal.
“Droga”
- O que é?
- Você pode fingir ser meu namorado?
...
“Então é assim que a mente funciona em estado vegetal”
- Kyon!
Eu não entendia. Por que diabos ela estava me pedindo esse favor? Não era a mesma coisa de pagar uma conta ou de levá-la ao planetário. Ela estava me pedindo – de maneira indireta – que eu me relacionasse com ela.
- Haruhi, eu não posso. Mamãe sempre me disse para nunca me envolver com estranhos e você é a pessoa mais estranha possível, me pedindo o maior envolvimento que eu poderia ter com uma garota até minha maioridade.
- Será por pouco tempo.- ela argumentou.
- Eu sei. Por isso, eu ainda não fugi da sala.- respondi com sarcasmo, entretanto, para não chateá-la, remendei com uma resposta séria – Eu não posso fazer isso, Haruhi. Sinto muito.
- Tudo bem, eu peço ao Koizumi-kun.- respondeu ela se levantando. Instintivamente, agarrei seu braço.
Como era? Podia ser qualquer um?
- Qualquer garoto serve?
- Qualquer garoto que não vá se interessar por mim.- respondeu ela.
Ah. Aquilo mudava muito o cenário. Além disso, despertava muito mais minha curiosidade. E olhe que a minha precaução sempre a mantinha dormindo.
- Por que você quer um favor assim?
Ela pareceu reunir fôlego. Cara. O que poderia ser constrangedor para HARUHI?
- Um garoto me deu um fora e eu pretendo fazer ciúmes a ele. Tenho certeza de que se fizer isso corretamente, ele irá reparar em mim e lutará para me recuperar!
- Haruhi...
- Sim???
- Você leu algum shoujo?
Ela quase tacou o livro na minha cara e tenho certeza de que alguns órgãos meus quase foram chutados por baixo da mesa, mas eu a contive quando disse:
- Eu posso lhe ajudar.
Ao declarar isso a ela, Haruhi deu um sorriso radiante que, de algum modo, me pareceu vitorioso e disse:
- Então está feito! Eu não permitirei que você se arrependa!
- Eu já estou arrependido.
- Tudo bem! Então, eu não permitirei que você desista!
- Nisso eu acredito.
Ainda feliz, Haruhi inclinou um pouco a cabeça e disse as inacreditáveis palavras:
- Obrigada, Kyon.
----------------------------------------------------------------------------------------------------------
“Obrigada”. Eu havia escutado direito? Não, não. Era impossível. Suzumiya Haruhi não agradecia.
Sério. Ela amava aquele cara tanto assim?
Quem ele seria? Provavelmente um tipo estranho. O humano mais próximo possível de um etê. Eu realmente adoraria vê-lo. Ajudaria-me a entender porque ele havia rejeitado Suzumiya.
Eu sempre achei que era o único a perceber que Haruhi era uma garota insuportável, mas percebi que havia outro. Era um choque. Até porque, se o garoto era realmente estranho o suficiente para passar pelos critérios de Haruhi, ele deveria estar em um grau de desespero pelo sexo oposto que não o permitiria rejeitar qualquer garota. Principalmente, uma garota linda como Haruhi.
Sim, linda. Irritante. Egoísta. Egocêntrica. Excêntrica. Detestável. Ainda assim, linda. Sigh. Em que tipo de situação eu estava me envolvendo? Aquilo estava me afetando.
Ao intervalo, não permiti que ela saísse para dar sua habitual volta pelo colégio. Quis fazer a pergunta que insistia em martelar, bater e – acredite- incendiar a minha cabeça.
- Quem é o cara?
Ela não respondeu nada. Apenas me lançou um sorriso de deleite e me puxou pela gravata. Tive medo de pensar para onde ela estaria me levando. Deduzi que era até o garoto. E isso me assustou mais ainda.
Mas nada me deixou mais assombrado do que ver o garoto pelo qual Haruhi havia se apaixonado. Eu conhecia aquele cara. Era o Takaomi Izumi! O garoto mais popular do primeiro ano! No baile do colégio, três garotas haviam me trocado por ele!
- Haruhi, eu mudei de idéia. Você não se inspirou em um shoujo.
- Lógico que não.
- Você se inspirou em “A garota de rosa-shocking”.
Ela me deu um soco no estômago, em resposta. Sigh. Eu já vomitaria sem que ela fizesse isso. A visão de um garoto tão esnobe, mas ainda assim rodeado por garotas e ainda por cima, amado por Haruhi me deixava doente.
- Por que diabos você gosta dele?- sussurrei.- O que pode haver de tão estranho nele?
- Ele é meu amigo de infância.
- Então, ele deve ser realmente estranho.
Ela ia me acertar novamente, mas consegui segurar seu pulso, mas não consegui deter a sensação de peso e acabei com ela em meus braços.
- Minhas desculpas.- disse eu, tentando me afastar e sendo detido por ela que enlaçava a minha cintura. Certo. Eu estava chegando ao auge do terror. Mais um pouco e eu viraria um escritor gótico.
Entretanto, ao ver o olhar fuzilador de Haruhi, entendi suas intenções.
“ Você realmente acha que isso vai funcionar?”- pensei, pousando a cabeça em seu ombro e tentando adivinhar qual era o seu xampu. Maçã. Definitivamente, maçã.
- Haruhi!- para a minha surpresa, era Takaomi o autor da frase. Aquele plano insensato realmente estava funcionando? Tive minha resposta poucos instantes depois, quando ele se aproximou dela e perguntou com visível agressividade – Quem é ele?
- Ele é o Kyon.
“ E isso diz tudo”
- Por que você está abraçando um garoto? Você já me esqueceu? Argh. Você é assim desde criança. Age pelo impulso do momento e agarra o que quiser. Ainda bem que eu não me envolvi com você ou...
Aquele cara estava me irritando. Irritando mesmo. Eu não estaria naquela situação, se ele não fosse tão cruel com a própria amiga de infância. Pensar que Haruhi estava se esforçando para conquistar alguém tão idiota me deixava apenas mais irritado. Ela era alguém orgulhosa, então descobrir que ela havia se declarado para alguém havia sido um choque. Ela certamente estava bem certa de seus sentimentos para fazer isso. O idiota devia saber disso. E ainda assim estava sendo esnobe com ela.
Se Haruhi quisesse namorar um modelo, um bêbado, um alien ou um poste, eu não me incomodaria. Mas aquele cara. Aquele cara me irritava mesmo.
- É muito corajoso da sua parte, falar assim da minha namorada. – comentei com um sorriso irônico. – Nem eu tenho coragem de fazer isso.
Aquela foi a primeira vez que vi um rosto tão orgulhoso tornar-se tão incrédulo.
- Namoro? Vocês dois?
“ Não, na verdade há mais quatro pessoas envolvidas. É um novo tipo de relacionamento baseado em alguns esquemas da máfia italiana.”
- Sim, nós dois.- confirmei com um pouco mais de convicção do que gostaria.
Nesse instante, ele deu um sorriso amargo e disse com uma indescritível expressão:
- Boa sorte para vocês.
Assim que ele saiu, larguei Haruhi como se tivesse levado um choque. Queria deixar claro que minha atitude havia sido somente para ajudá-la. Contudo, quando vi o rosto dela, quando percebi aqueles olhos de ébano fitarem-me incessantemente, perdi totalmente minhas forças e declarei:
- Ele é um idiota.
- Eu tomarei isso como um insulto. Você está questionando o gosto de sua chefe de brigada.
- Acredite, essa não é a primeira vez.
- Eu só irei te perdoar porque você, afinal, fez um excelente trabalho. Como o esperado do co-fundador da brigada SOS.- respondeu ela, brilhando. Como ela conseguia isso? Como ela conseguia drenar toda a minha energia apenas com um sorriso? Provavelmente eu estava traumatizado, já que todo sorriso de Suzumiya era sucedido por humilhações públicas e pesados trabalhos braçais para toda a brigada. Sim, devia ser isso.
- Por que você gosta dele?- perguntei a ela.
- Somos amigos desde os sete anos, o sentimento surgiu naturalmente. Não há nada de estranho em se apaixonar por alguém que sempre está com você.
“É lógico que há. É como se eu me apaixonasse por você, do nada.”
Não entendi bem o porquê, mas aquele pensamento havia me deixado desconfortável. O filtro do meu sarcasmo precisava ser limpo, imediatamente.
- Kyon?
- O que é?
- Você está completamente vermelho.
Era só o que faltava. Uma febre. Inexplicável e saída do nada, assim como o amor de Haruhi.
Mas ao contrário da febre, eu não queria combater o sentimento dela. Quem sabe, se no final o garoto realmente passasse a gostar dela, a brigada não ficaria mais tranqüila? Eu poderia namorar com Asahina-san....
Como diz o ditado, há males que vem para bem.
----------------------------------------------------------------------------------------------------------
“ Contudo, o número dos bens que tornam-se males é muito superior”- complementei mentalmente, enquanto caminhava de mãos dadas com ela até o colégio. Além dos olhares chocados, eu ainda tinha que agüentar o mau humor matinal de Haruhi. Argh. Senhor, o que eu fiz? Esse é o castigo divino que me redimirá de todos os pecados?
A mão de Haruhi era pequena em relação a minha e esporadicamente ela me dizia irritada:
- Está doendo! Você quer parar a circulação sanguínea de sua líder!?!
- Oh, não. Meu plano perfeito...!
- Idiota!- ela reclamava, mas apesar de sua visível irritação era ela que, por vezes, apertava minha mão. Quem poderia entendê-la?
Quando chegamos, me recusei a conversar com os membros da brigada ou com meus amigos e fui logo até a sala. Eu agüentaria tudo, menos conselhos.
- Eu posso contar para os outros que o nosso namoro é falso?
- Claro que não! Que sentido haveria??? O que é falso deve parecer verdadeiro! É uma regra fundamental!
- No mundo do crime, você diz.- complementei, brincando.
Ela pareceu aprovar a piada, pois um tênue sorriso surgiu em seus lábios e ela me perguntou em um tom controlado:
- Por que você quer revelar isso?
- Eu não quero que as pessoas interpretem de outra forma.
- Humpf. “Pessoas”, é? Francamente, Kyon. É óbvio que você está falando da Mikuru-chan.
“ Onde Asahina-san entrou nessa conversa? Além disso, acho que ela conta como humana até o momento em que você mudar de opinião quanto a isso”
- O que tem a Asahina-san?
- Não se faça de idiota! Você entendeu bem!
“ Não, não entendi.”
- Certo! Eu entendi! É mesmo por causa da Asahina-san! Qual é o problema nisso????
Por que fui dizer aquilo? No tempo que levaria um piscar de olhar, Suzumiya Haruhi enlaçou-me pelos ombros em um longo e apertado abraço. Nossos corpos estavam tão próximos que eu podia sentir as batidas de seu coração.
- Haruhi, o que...?
- O Takaomi-kun está olhando, por favor, não reaja.
Vale lembrar que quando uma garota está a essa proximidade, sussurrando, com o coração disparado e com um corpo tão quente e macio seria difícil não reagir. Instintivamente, envolvi Haruhi, correspondendo o abraço e torcendo para que pelo menos ela não estivesse sentindo minha freqüência cardíaca. Foi quando ouvi a frase:
- Ele deve estar morrendo de ciúmes, não acha? Aposto que ele deve estar louco para me tirar daqui!- disse ela, desvencilhando-se do abraço com um grande sorriso.
Haruhi, você realmente sabe quebrar um clima, não é?
O que foi isso? Uma tortura lenta?
Eu sou um homem. Não brinque com meus hormônios. A sua sorte é que eu realmente sinto repulsa a você, caso contrário, eu já estaria aproveitando a situação há muito tempo.
- Eu aposto que sim.- respondi, inexplicavelmente irritado, sem coragem de olhá-la nos olhos.
Haruhi, como sempre, estava me irritando, e muito.
---------------------------------------------------------------------------------------------------------
Foi em outro dia comum, desses em que a gente espera até as surpresas, que vi uma cena que mudou tudo o que eu tinha em mente. O Takaomi, que havia rejeitado Haruhi e me forçado a entrar na estranha e insuportável rotina de fingir ser o namorado dela, me pediu explicações.
- Você não pode estar gostando de Haruhi. Fale a verdade. O que ela está tramando?
Devo admitir, aquele cara tinha bom senso. Bom. Era lógico que ele tinha, afinal, ele havia dispensado Haruhi. Entretanto, algo ainda me irritava nele. Talvez fosse uma antipatia qualquer, forte o suficiente para me fazer permanecer leal a Haruhi.
- E por que eu não gostaria dela?
- Ela é louca! Ela é estranha! E nos traga para dentro de seu mundinho particular, com a intensidade de um furacão!
Aquela descrição era completamente compatível e aceitável. Se houvesse algum sinal qualquer para avisar possíveis vítimas de Haruhi, ele teria aquela frase. Como eu rebateria algo em que eu concordava plenamente?
- Eu sei que ela tem todos esses defeitos, você não precisa me dizer isso.
- Então por que você está com ela!?! Você está apaixonado por ela!?!
Epa!
- Eu deveria ser o único a lhe fazer essa pergunta! Desde quando você se interessa com quem Haruhi está saindo ou não??? Existem várias garotas atrás de você, não é!?! Por que se importar tanto com uma!?!
- Você não respondeu minha pergunta!
- E nem você, a minha!
Nesse ponto da discussão, Haruhi entrou na sala. Aquilo estava cada vez mais e mais parecido com um shoujo.
- O que vocês estão berrando na imaculada sede da brigada SOS?- perguntou ela, em tom acusatório. Ei. Não me lance esse olhar. Quem começou foi ele. Além do quê, você é a que mais berra nesta sala, neste colégio, neste mundo.
- Eu estou saindo...- disse o arrogante, Takaomi, saindo sem dirigir a ela, um único olhar.
Eu não pude acreditar, mas sabia que era verdade. O estranho plano de Haruhi havia funcionado. Ele estava morrendo de ciúmes.
- Kyon! O que o Takaomi-kun estava fazendo aqui???
- Nada.- menti. Eu não queria entusiasmá-la com aquela notícia.
- Vamos! Você pode me dizer!
“ Eu posso, mas não quero”
- Esqueça.- disse eu, tentando me concentrar em minha lição de casa. Ela, então, pousou a cabeça sobre meu ombro, por trás de mim. Eu poderia citar trinta e cinco coisas que me atordoaram naquela cena, mas o perfume dela era a mais preocupante. Dessa vez, era laranja. Talvez ela mudasse de acordo com os dias da semana, assim como fazia com seu penteado no passado. Decidi que não deveria comentar isso com ela, sob pena de levar a culpa por ela nunca mais lavar o cabelo.
Eu estava tão acostumado com a proximidade de Haruhi que até estranhava sua ausência. Eu havia me habituado com o peso de Haruhi – que antes se concentrava somente em miinhas costas – em meus ombros ou braços. O que defende minha tese de quão poderoso é o hábito.
- Diga para mim, Kyon...- disse ela, sussurrando -...o que ele queria?
“ Você”
- Nada. Pare de me importunar.
- Eu não vou sair daqui a menos que você me conte!
“ Eu estou ficando com raiva”
- Tudo bem! Fique aí o dia inteiro! Você não faz diferença!
De repente, me toquei de que minha frase poderia tê-la ferido, mas ela nada comentou e nada fez.
- Haruhi?
- Ele me dispensou não foi?
- O quê?
- Ele disse alguma coisa que poderia me ofender. Por isso você não está me contando.
- Eu...!
- Diga a verdade!
Bem, ele havia ofendido Haruhi, mas somente porque a amava. Apesar do paradoxo, essa frase é completamente compreensível.
- Eu acho que ele está com ciúmes de você...- admiti, sentindo-me um fracassado.
- Mesmo???? Então, deu certo??? Bah! É óbvio que deu certo! Afinal, o plano era meu e eu sou brilhante!- exclamou ela, com os olhos brilhando, preenchidos por uma grande alegria. Na verdade, há muito eu não via Haruhi sorrindo tanto. Aquele idiota a deixava tão feliz assim? Vê-la agir de modo tão estranho era realmente um saco.
- Nós podemos terminar a atuação agora? Você já conseguiu o que queria, não foi?
- Nada disso! Um velho sábio dizia que você devia terminar o que começou!
“ Esse velho sábio provavelmente era seu pai lhe mandando terminar alguma coisa”
- E o que você sugere agora?
Ela novamente pareceu juntar forças e extrair todo o oxigênio que havia na sala. O que era agora?
- É realmente uma honra, um privilégio para você ter que vivenciar isso, então seja grato e não reclame!
- Do quê?
- Do beijo que você vai me dar.
----------------------------------------------------------------------------------------------------------
Corredor, três da tarde. Eu – vulgo: Kyon – estava me preparando para uma cena inacreditável. Eu iria beijar Haruhi.
Cena que só tinha ocorrido em meus pensamentos mais pessimistas e nos meus piores pesadelos.
Minha caridade era tão grande assim? Nem eu sabia que era tão altruísta. Eu devia ganhar uma estátua!
Normalmente, eu nunca tocaria em Haruhi, mas aquilo...aquilo era por uma boa causa. Depois que eu a beijasse, Takaomi teria um acesso de ciúmes e a tiraria de mim. Os dois começariam a namorar, ela se distrairia e deixaria de criar espaços fechados. Todos sairiam ganhando. Até mesmo Nagato que sequer foi citada na história. E ainda havia o fato que eu finalmente poderia namorar Asahina-san, o que era minha motivação desde o início. Um beijo. Apenas um beijo; e tudo estaria encerrado.
Era essa a minha linha de raciocínio. Ela era tão boa que foi uma pena vê-la dissolver-se em minhas mãos, diante da chegada de Haruhi com um rabo-de-cavalo.
Aproximei-me dela como se me certificasse se ela era ou não uma miragem.
- O que foi?- perguntou ela, apreensiva.
- Nada.- respondi.
- Mentira! Ficou horrível, não foi??? O Takaomi-kun vai odiar! Bah! Não sei o que me deu para usar um rabo-de-cavalo!
- Haruhi...
Assim, cheguei a conclusão de que minha raiva por ela era maior do que eu conseguia imaginar.
- O quê?
Decidi que, definitivamente, eu não podia agüentar aquela experiência.
- Você é uma idiota.
- O qu...!?!
Seus lábios tentaram resistir, não permitindo minha passagem, mas sua boca era tão macia quanto seu corpo e eu não consegui desistir. Por longos instantes, meus lábios disputaram com os dela, até que eles se entreabrissem, procurando por ar e nesse instante eu a beijei. Eu sempre quis saber o gosto dela. Não soube definir. Era um gosto doce e quente do qual eu não conseguia enjoar. Nunca me senti tão vulnerável, em face ao meu desespero em roubar seu fôlego. Conclui que nem mesmo eu sabia o quanto queria beijar Haruhi. E agora todo aquele desejo vinha como uma sede selvagem que ia de meu peito a minha boca.
Eu estava- novamente por instinto- tentando enlaçá-la quando senti uma forte dor e um profundo impacto no lado esquerdo de meu rosto. Achei que minhas ações haviam, finalmente, me rendido um golpe de jiu-jítsu quando percebi o responsável pelo ato. Takaomi me olhava com uma fúria incontida. Aparentemente, eu havia levado um soco.
- Seu idiota! O que você pensa estar fazendo!?!
Olhei para Haruhi.
“Parabéns, ele está com ciúmes. Você conseguiu. Está satisfeita?”
- Venha comigo!- disse ele, tomando a mão dela e a levando para fora do corredor, onde eu ainda estava caído, com o rosto ardendo de dor e vergonha.
“Então me deixe em paz.”- concluí.
Eu estava ferido. Não apenas em meu rosto. Não apenas em meu orgulho. Eu estava ferido em algum lugar muito mais íntimo e oculto em minha alma.
Não era como se eu não esperasse por aquilo, mas, talvez, justamente por esperar que aquilo tivesse acabado comigo.
E tudo era culpa de Haruhi. Daquela imbecil da Haruhi. Daquela detestável egoísta.
Eu vaguei pelos corredores por horas, até ser encontrado por uma alegre chefe de brigada que sorria como nunca.
“ Você realmente não se importa com o meu estado, não é?”
- Kyon! Kyon! Por onde você esteve!?! Eu estava lhe procurando como uma louca! Tenho novidades!- exclamou ela, visivelmente entusiasmada.
- É mesmo?- retruquei com raiva e ironia, mas ela aparentemente não percebeu. Ou ignorou, como fazia usualmente.
- O Takaomi-kun se declarou pra mim! Ele estava morrendo de ciúmes! Fique feliz por sua chefe de brigada, Kyon! Pela competência de seus atos, lhe promoverei três cargos adiante!
- Ah, mesmo?- retruquei no mesmo tom, sentindo meu corpo pesar cada vez mais.
- O que há com você? Não está feliz?
- Não, não estou nenhum pouco.
- O que você disse!?!
Temendo que ela reagisse, coloquei-a contra a parede para que ela não escapasse.
- Eu disse...- falei unindo fôlego e vãs tentativas de recobrar a razão-...que não estou nada feliz.
- Por quê?
- Porque como eu disse antes, você é uma idiota.
- E você me odeia por isso!?!
Nem eu entendi o porquê, mas meu corpo reagiu a beijando intensamente. Mesmo se levasse mil socos eu não pararia aquilo. Lembro-me que pensei algo parecido quando estava no espaço fechado. O mundo, literalmente, poderia acabar sem que eu encerrasse aquele beijo. Porque o gosto de Haruhi era realmente doce.
Quando nossos lábios se separaram, ainda recuperando o fôlego, eu os desci até seu pescoço e experimentei o sabor de sua pele, dominado pelo instinto primitivo de deixar uma marca nela. Eu podia sentir os batimentos cardíacos, através da fina pele do pescoço. Podia sentir seu ritmo respiratório. Não que eu me importasse muito, pois estava completamente embriagado pelo perfume dela. Dessa vez, era canela. Um gosto doce e amargo. Tão peculiar quanto a própria Haruhi. Doce e quente. Como sua boca e pele naquele momento.
Droga. Aquilo não era óbvio o suficiente?
Quando finalmente quietei meus lábios, segurei seus ombros e disse:
- Muito além do que você possa imaginar. Eu te amo muito além do que você possa imaginar, por isso.
Ela olhou-me com tamanho espanto que chegava a ser engraçado. Sua surpresa era como a de mulher que procura saber se o marido tem um amante e descobre que ele era um padre. Acho que ela realmente estava chocada com a revelação. E não era de se estranhar, já que eu era o mais chocado. Após tantas voltas, eu finalmente soubera o que Haruhi representava para mim. E o mais engraçado é que a definição já havia sido dita por mim. Haruhi era Haruhi. Irritante e estranha. Egocêntrica e teimosa.
E ainda assim, eu havia declarado meu amor a ela.
- Você me ama?- perguntou ela, tentando assumir um tom autoritário.
- Ou algo parecido.- respondi um pouco mais calmo e irônico.
- Idiota!
A resposta dela nunca mudava. O mesmo insulto e o mesmo abraço. Mas dessa vez Takaomi não estava ali. E era humilhante o quanto aquilo me deixava feliz.
______________________________________________________________________
Antes de me dar qualquer resposta, Haruhi disse que iria falar com Takaomi. Sigh. Aquele seria o fora mais marcante da era moderna desde que Nietszchie fora dispensado por Salomé. Eu me declarei para Haruhi. Haruhi! E me declarei logo no momento em que ela estava tentando conquistar seu amado e o pior, conseguindo! Eu era masoquista?
Bem, o poder do masoquismo certamente vencia o do hábito, então talvez fosse aquela a explicação final do motivo que me guiava àquela brigada.
Como Haruhi demorava, resolvi ir até a sala onde os dois estavam e já ia entrar quando a ouvi dizer:
- Perfeito! Deu tudo certo! Você é brilhante, Takaomi-kun! Promoverei-lhe três cargos adiante em minha brigada!
- Eu já disse que não quero entrar nessa brigada.
- Bobagem. Quem não quer entrar na brigada???
“ Eu nunca quis”
- Eu não quero!
- De qualquer modo, muito obrigada por sua colaboração! Meu plano perfeito – como o esperado- deu certo! O Kyon realmente gosta de mim!
- Bah. Eu tive que passar por um papelão! Sabe quantas garotas vão se afastar de mim?
- Bobagem! Você as recupera em dois instantes! Quando elas souberem de sua posição na brigada, elas voarão em cima de você!
“ Com facas, eu suponho”- pensei com certo sarcasmo, mas ainda tentando entender o que exatamente era aquela conversa.
- Você armou todo esse plano e toda essa atuação apenas para testá-lo? Sigh. Você realmente está apaixonada, não é?
Nesse instante, meu coração perdeu as noções cardeais, morais e biológicas e perdeu completamente o controle.
Então, ela não estava apaixonada por Takaomi. E Takaomi não estava apaixonado por ela.
Claro, isso era lógico levando em conta o quanto Haruhi era estranha. Um plano desses para conquistar um garoto? Tenha dó. Ninguém em sã consciência se apaixonaria por ela.
Exceto eu.
“Ainda bem.”
FIM
______________________________________________________________________
táh eu chorei HAHA
ResponderExcluirFOi vcc que escreveu? *-*
Se foi achei incrivel como você não mudou a personalidade da Haruhi e Kyon.. ficou tão perfeito, poderia até ser um episodio do anime o.o
pensei que o Kyon ía ficar lá no chão e a Haruhi com o bonitão...
AMei o final *-*